sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um rio na sala de estar


Pintura de Piet Mondrian - 1911


No Egito há um rio escuro
Em Goiás há um rio turvo
No inferno há um rio cinzento
E no céu
Há uma tinta azul
Que faz rio emoldurado
Na tela de sua sala.

A tinta azul esparramada
Recebe outra verdíssima
Recebe o branco da espuma
E um muro
Em tons de rosa e de sangue
Pincelado sobre a água.

Eu tenho aqui outra tinta
Presa do lado de fora
Também fria, porém arde e
Com ela
Vou sombrear uma porta
De entrada no cor-de-rosa.

De lá saltarei no azul
Separado por um fio
Onde quer ser céu e onde quer

Ser rio.


*Poesia publicada no blog Psicose da Nina, em 17/01/2016



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

M'olham


Pintura de Shelby McQuilkin

Mergulho as mãos em letras frias
Tiro-as da solidão
Ao fazermo-nos palavras
E as olhas
E m’olhas

Mas a sede não acaba
— Pudera! — alguém diria
— Só puseste as mãos à beira
Não... te enganas
Caí inteira

Culpa a língua (essa danada!)
Que é quem me limita.
Vou com os versos quebrantados
Que falam
E falham

Sinestésicos chegamos
Qual rio na terra
Esparrama-se em (a)braços
Faltosos
Que m’olham






terça-feira, 11 de agosto de 2015

Antes do anoitecer


Imagem do fotógrafo russo Misha Gordin, via blog Meia Seis


 Rompi-me a vida uma vez

Para nunca ma(i)s, voltei.

Rompi-a eu de novo

Em ondas de mar revolto

E ainda outras vezes mais.

Refrega inevitável

Face a face comigo

Debaixo da mesma luz

Compondo a mesma sombra -

Pássaro pincelado

Em quadros separados

Qual versos de poesia

Em apelo constante

De rompimento e abraço.

Adeus!

Golpeiam-se-me as asas,

Vou partir-me em funeral

Antes do anoitecer.

Aeronauta que sou

Contemplarei a terra

Sobre mim e lançarei

Os dados mais uma vez.




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Piracema


Nice Soleil Fleurs - Marc Chagall



Nada
De nadar para fora
Nada
De sair do curso a essa hora.
Nada
Rio acima, à exaustão
Nada
À minha água rasa, como
Se fosse a nossa alcova:

Esconde-te e desova.




domingo, 10 de maio de 2015

Feito asas




O voo das borboletas - Paul Klee



Neste dia eu queria
Dar-lhe, mamãe, umas flores
Pequenas e delicadas.
Chegando aqui, já não estavas.
Quis dar-lhe palavras e quis
Que nada me impedisse.
Joguei-as ao alto e foram
Feito folhas no outono,
Mas as quero feito asas.
Não as da nave que me trouxe
Após a tua partida,
Mas asas
Que pulsassem, confirmassem:
“Ela ouviu, sorriu e disse...”
- Disse o quê? O que ela disse?
“Que andas muito sisuda,
Que deves sair pra brincar,
Que até a angústia mais aguda
Tem sua hora de acabar”.



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Madrugada



Pintura de John Atkinson Grimshaw



É madrugada,
Não se vê quase nada.
Ouço animais da noite
E sinto o vento gelado.
Silêncio! É mais prudente,
Porque é madrugada
E vemos quase nada.




sábado, 11 de abril de 2015

Espectro mudo



Musician Angel - Rosso Fiorentino


Língua desconhecida
Em cordas de contrabaixo
Pareceria até uma canção de amor
Se houvesse quem a cantasse

Fala que não se traduz
Em cordas de velho alaúde
Seria até meio de contemplação
Se houvesse quem a escutasse

Eco do que não é dito
Vibrando em cordas vocais
Pareceria até uma brincadeira
Como se houvesse mais alguém
Quem    quem    quem