quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Um gesto

Fotografia de Anja Bührer


Diante de ti, estou calada e imóvel. Se me fizesses uma pergunta, talvez fosse fácil responder, mas dizes nada. Se me anunciasses um acontecido, eu poderia tecer um comentário vazio qualquer. Se me cantasses um hino, eu poderia me esquecer de que estou diante de ti, calada e imóvel.

Sei que se eu fizer um pequeno gesto, talvez uma palavra se defina e chame outra. Esse gesto, eu farei? Se o fizer, continuarás imóvel diante de mim, bem sei, mas há de absorver-me em teus poros e, então – ah! – não poderei mais retirar de ti o que de mim se projetar e deverei seguir reconciliando-me comigo. Comigo, por ti. Revelando-me em ti.

Olho a paisagem que se basta sem palavras. Por que não basto também eu a mim?

Se fosse este um primeiro encontro, justificar-se-ia o receio de projetar-me no vazio. Se fosse este o segundo ou terceiro encontro, ao menos o gesto esperado me sairia. Mas é o quarto, é o quarto...

Sendo assim tão difícil ainda hoje, esperemos mais um pouco, sem aversão nem conformidade. Enquanto espero, mergulho nos espíritos que repousam em minha estante. Como falam em seu silêncio grande. Parece que já disseram tudo, menos o que se agita em mim perante este vazio que parece ser teu.

Nunca antes assim e por tanto tempo, uma folha em branco me foi tão angustiante.




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Dois haicais


Aquarela de Victor Octaviano


Alto-mar

No alto  mar  mar
          a      a
Fumaram todas as folhas
De livro arbítrio.




(Des)cobrimentos

Muito segredo há
Sob as malhas da rede
Coberta de sol.












quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Acorde, palavra


Picasso: Grande Baigneuse au Livre


Quem é essa que tem medo
De um livro ainda fechado?
Quem aquela que o abre
Sem recuar ante o achado?
Quem mergulha e relata
Com gozo os seus pecados,
E não pontua seus contos
Nem depois de terminados?
Quem aquela que oferece
Sua língua em leituras
E quer devorar faminta
Nossas orelhas astutas?
E aquel’outra que não fala,
E pede em olhos ardentes
“Lê pra mim, Sê a palavra!”
Olhando a estrela cadente?
Morreram todas em folhas
De solidão que escolheram
O dia ainda era um prelúdio
E os sopros entardeceram.
Oh, meu Maestro, permita!
Aceite que eu repita
Meu ensaio e minha prova
De canção que quer ser dita.





sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um rio na sala de estar


Pintura de Piet Mondrian - 1911


No Egito há um rio escuro
Em Goiás há um rio turvo
No inferno há um rio cinzento
E no céu
Há uma tinta azul
Que faz rio emoldurado
Na tela de sua sala.

A tinta azul esparramada
Recebe outra verdíssima
Recebe o branco da espuma
E um muro
Em tons de rosa e de sangue
Pincelado sobre a água.

Eu tenho aqui outra tinta
Presa do lado de fora
Também fria, porém arde e
Com ela
Vou sombrear uma porta
De entrada no cor-de-rosa.

De lá saltarei no azul
Separado por um fio
Onde quer ser céu e onde quer

Ser rio.


*Poesia publicada no blog Psicose da Nina, em 17/01/2016



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

M'olham


Pintura de Shelby McQuilkin

Mergulho as mãos em letras frias
Tiro-as da solidão
Ao fazermo-nos palavras
E as olhas
E m’olhas

Mas a sede não acaba
— Pudera! — alguém diria
— Só puseste as mãos à beira
Não... te enganas
Caí inteira

Culpa a língua (essa danada!)
Que é quem me limita.
Vou com os versos quebrantados
Que falam
E falham

Sinestésicos chegamos
Qual rio na terra
Esparrama-se em (a)braços
Faltosos
Que m’olham






terça-feira, 11 de agosto de 2015

Antes do anoitecer


Imagem do fotógrafo russo Misha Gordin, via blog Meia Seis


 Rompi-me a vida uma vez

Para nunca ma(i)s, voltei.

Rompi-a eu de novo

Em ondas de mar revolto

E ainda outras vezes mais.

Refrega inevitável

Face a face comigo

Debaixo da mesma luz

Compondo a mesma sombra -

Pássaro pincelado

Em quadros separados

Qual versos de poesia

Em apelo constante

De rompimento e abraço.

Adeus!

Golpeiam-se-me as asas,

Vou partir-me em funeral

Antes do anoitecer.

Aeronauta que sou

Contemplarei a terra

Sobre mim e lançarei

Os dados mais uma vez.




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Piracema


Nice Soleil Fleurs - Marc Chagall



Nada
De nadar para fora
Nada
De sair do curso a essa hora.
Nada
Rio acima, à exaustão
Nada
À minha água rasa, como
Se fosse a nossa alcova:

Esconde-te e desova.