quarta-feira, 6 de abril de 2011

O novelo de Alice


O novelo de linha caiu. Foi rolando e se desenrolando pela sala. Alice deitou-se no tapete, esticou o bracinho magro, pegou o novelo e o entregou à mãe.
– Enrole a linha que se soltou, Alice. Se não enrolar direitinho, vai embaraçar.
Alice passou então a linha azul em círculos pelo novelo, acompanhando seu curso original, bem lentamente, bem bonitinho. Perfeito.
O momento lhe veio à mente com saudade.
Saudade não do passado, mas simplesmente do tempo quando não era preciso pensar que houvesse o tempo. O que terá mudado? Alice, os relógios, o mundo ou as pessoas todas, todas ou quase todas?
Alice hoje é uma mulher reduzida e encadeada pelo tempo. Ele é feroz e exigente. Ela o sente bafejando em seu pescoço a todo instante, a incitá-la, a provocá-la, a movimentá-la.
– Onde estará, tempo, aquela sua mansidão?
Algumas vezes, a vontade de Alice é parar. Mas um dia permitiu-se ser submissa e não consegue mais desvencilhar-se do tirano, que ordena a todos, controla-nos, impõe-nos os limites. Foi tão lento e sutil o abraço, tão gentil o envolvimento, tão cheio de gozo o momento em que Alice entrara na engrenagem do mundo. Fascinante mundo da produção e do poder, da troca e do brilho. Tudo balela.
Hoje, cá está Alice, escravizada no funcionamento das rodas dentadas. Ela não consegue mais conviver com o amigo que a acompanhava nas fantasias da rua e da terra, amigo que não se mostrava, senão nas horas mais belas... o raiar da manhã, o queimar dos ombros, o corar do horizonte. Horas que Alice nem percebe mais. O tempo enfurecido só lhe fala através do despertador, dos dígitos do celular e da tela do computador.
– Corre, corre. – É tudo o que ele hoje lhe diz.
Novelos de linha não caem mais, porque a mãe carinhosa o tempo também lhe tomou. Alice não sabe correr seus dedos em agulhas de crochê – coisa morosa – e não suja mais os pés de terra. As ruas estão cobertas de asfalto coberto de carros cheios de alices apressadas, mulheres de homens apressados, mães e pais de filhos resistentes. Sobreviventes. Até quando? Até como?
Alice pensa de novo em parar. Mas todos circulam tão ligeiramente, que ela receia se machucar. Pode ser atropelada, esmagada, pisoteada. Não. Melhor não ousar, melhor continuar. As correntes vão se arrochando, as marcas se aprofundando, mas Alice vai prosseguindo. Corre disposta a prolongar-se até o dia em que tiver de partir da vida para algum lugar onde o tempo seja novamente pleno ou não seja nada mais. Nunca mais.
E no lance pequeníssimo desse momento, Alice se dará conta de que o tempo nunca deixou de ser manso, nem amigo. Ela não sabe que o tempo chora ao vê-la sentindo-se amarrada nas linhas dos novelos que continuam a cair e que ela não vê, não se curva para recolher.

3 comentários:

  1. Quanta delicadeza! Isso é poesia. Gosto desse estilo preciso e elegante. Parabéns mesmo!

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  2. Pratiquei muito essa ação quando ajudava minha mãe com as costuras. Hoje o novelo continua por aí, se desenrolando; e minhas tentativas de contê-lo resulta que me fico nele enrolado tal qual mosca na teia.
    Minha Regina, parabéns pelo bom texto!
    Você tem uma percepção bem realista dos nossos tempos - e melhor ainda: consegue expressá-la com uma clareza cristalina, poética.
    Maravilhoso!
    Abraços, querida!

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  3. Ótimo e reflexivo texo.Doce e belo!!!Parabéns pelo blog que seguirei com prazer.

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