quarta-feira, 27 de abril de 2011

A poesia do cello

Lá está ele. Inerte corpo avermelhado, luminoso como se refletisse a luz do entardecer. Pinho e mogno incorporados, leveza e dureza, maciez e resistência. O braço escuro, de noturno ébano, sustenta o canto ainda mudo.
Lá está ele, em madeiras por cujos vasos já não corre mais a seiva. Agora, tem nervos expostos, fios tensos. Madeiras apropriadamente secas, de árvores derrubadas em tempo certo, talhadas por mãos de habilidoso lutaio. O violoncelo que ora é apresentado foi adquirido por Maurício de um restaurador paraense, que acreditva ser aquele um instrumento de origem européia, provavelmente construído no século XVIII, uma época em que lutaios não utilizavam estufas como hoje e que todos os homens trajavam preto para assistir a um concerto.
Considerando sua qualidade e as referências deixadas pelo ex-proprietário, que o vendeu contando ao restaurador histórias de relíquias de família, Maurício indaga a imaginação sobre onde e por quanto tempo viveram as árvores que originaram o corpo deste cello. Alguma na América, outra talvez na África, outra bem longe dos trópicos. Elas provavelmente resistiram por séculos até serem derrubadas, foram estocadas e supervisionadas outono após outono, mais um outono e talvez ainda outro, até poderem unir-se no formoso instrumento que lhe chegou às mãos. A origem desconhecida e fantasias sobre sua história encantam Maurício sobremaneira. Esse músico perde-se a sonhar sobre os caminhos que há de ter percorrido seu cello. Teria ele integrado orquestras em concertos por muitos países? Teria algum dia estado em Bayreuth, executando obras de Wagner? Quantos homens e mulheres já teria feito se emocionar com as suítes de Bach ou os contrastes refinados de Villa-Lobos? Que mãos já teriam provocado seu canto?
Aqui está ele. Parece insinuantemente só aos olhos dos que começam a ocupar o teatro São Joaquim. Mas não está só. A ausência de Maurício preenche-o com desassossego. Todos os demais instrumentos da orquestra encontram-se em repouso sobre o tablado, mas somente sobre este violoncelo está o foco de fina luz. Pela primeira vez, ele será o solista de um concerto. Foram meses de ensaio, com a orquestra ou sem ela, mas sempre com Maurício, que não conheceu as poucas mãos que já o manusearam, já o comoveram ou decepcionaram. Essas memórias, incomunicáveis, pertencem apenas à sua alma, um pedacinho de madeira cravada em suas vísceras e que distribui por todo o corpo as vibrações das cordas.
Maurício tem os olhos da cor da terra, de cujo seio as raízes absorvem o vigor da existência. Eles são vastos como ela, abrigam tesouros e vidas tantas, incontáveis e indecifráveis. Tem estrutura forte, ombros largos, grande tórax e a pele n’acorde folhas caducas. Folhas caem como notas, descem leve,
                                           gra
                                                  v
                                                      i
                                                         da
                                                             de
                                                           notas graves
                                                      que vão ao encontro da mãe,
                                           em ocreada cor de saudade.
Seus cabelos são escuros como as fibras do ébano por onde resvalam seus dedos, planejada e naturalmente.
Os músicos começam a ocupar o palco. Todos os instrumentistas a postos. Entra o regente e cumprimenta formalmente a platéia, que não inclui personalidades políticas como ocorre nas grandes ou notórias apresentações. O violoncelista-solo senta-se, tem o corpo leve como o de um felino. Toma o violoncelo e, entre seus joelhos, abriga as cavas do instrumento. O maestro ergue os braços, tem os olhos fixos nos olhos de Maurício, que altiva o tronco. O cello inspira. Ele agora é uma extensão do corpo de seu instrumentista. Entra na alma dele, ama com o amor dele e vai cantar com o coração dele. Sua história não existe mais.
Maurício envolve o braço do cello em sua mão. As cordas perturbam-se. O arco se aproxima. O cello expira: declama sua poesia, revela sua afeição. É por Maurício que a crina do arco vem.
...E vai
Volta logo
Vai de novo, sem intervalo
Até onde ordena
A partitura,
O destino escrito
O sentimento transcrito
Em pautas
Linhas, cordas.
Um fio é a vida.
A orquestra – pequena e imponente orquestra de câmara – entra com violência, integrando-se à melodia e aos desenvolvimentos. Outras cordas, muitos sopros, percussão. Os solistas integram-se a ela, separam-se sob ouvidos atentos, voltam a integrar-se. Eles têm duas mãos e um corpo, de madeira e coração.
Que sensação melhor pode ser a de experimentar um átomo do que seja ser Deus e estar em comunhão com ele? Os intérpretes vivem o real e o fantástico, em perfeita simbiose. E como o fantástico também é real, Maurício e o cello provam o gosto da polipresença. Ora encontram-se no mesmo mundo chão de madeira e alvo de atenção, ora encontram-se no mesmo mundo dos sentidos, mas nunca no mesmo mundo de suas saudades e imaginações. Essa exclusividade – ou solidão – é o que faz deste cello, o único cello, e de Maurício, o único homem.

*Este conto recebeu o prêmio Célia Câmara em Literatura, no 14º Concurso Sesi Arte Criatividade - 2004.

6 comentários:

  1. Conto sinfonia! O conto flui como música. Consegui ouvir o "canto", ora grave, ora meio agudo, do cello de Maurício e de tantos outros instrumentistas que tiveram junto a si ou uno consigo esse instrumento que, com certeza, guarda tanta história e estórias entre seus veios e verniz.
    Escritora, poetisa, repórter de fragmentos cotidianos. Que bom você compartilhar esse blog.
    Parabéns Regina

    Ronaldo Corrêa

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  2. É espantoso a riquesa de detalhes;as minúcias elegantemente retratadas formam realmente um belo texto, verdadeiramente digno de prêmios.
    Parabéns, minha Regina!

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  3. Parece interpretado pelas cordas de um cello Suave e profundo!...
    Parabéns!

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  4. Escrever requer, além de inspiração, vivência, conhecimento, pesquisa. Requer alguém como você, Regina, leitora do seu mundo e do mundo que habita em cada tipo/ser.

    Parabéns, hoje e sempre.

    Cláudio Marques.

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  5. Palmas pro júri que premiou um conto digno de destaque! É ótimo quando o mérito triunfa. Parabéns, Regina!

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  6. Regina, que conto tão belo.
    "Que sensação melhor pode ser a de experimentar um átomo do que seja ser Deus e estar em comunhão com ele?"
    A música proporciona, sim, essa experiência de contato com o Divino.

    Parabéns pelo prêmio!

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