segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sabãozim

O tempo passa na grande saboneteira. Nem parece que ela também passa no tempo. Só não passa no espaço: no mesmo lugar em que a frágil muda foi entregue à terra, prendem-se hoje suas robustas raízes, que souberam bem contornar obstáculos quando pequeninas. Lentamente foram se fazendo mais respeitadas pelas pedras e os ramos subterrâneos, que iam ficando cada vez menores diante da realeza que se alongava pelo solo e pelo ar.
O velho menino sempre a chamou de sabãozim. Assim ouviu seu pai nomeá-la quando chegou com a plantinha na fazenda há sabe-se lá quantos anos. Muitos anos. O pai era um jovem vigoroso e o menino hoje já nem consegue mais correr por causa dos ossos que lhe pesam. Mas a sabãozim, imensa, é ainda frondosa, com a copa redonda e grande como nunca, a sombra se esparramando pelo pasto.
            Protegendo-se nessa sombra, está sentado agora o velho. Acomoda-se no pé da sabãozim e descansa seu tronco no tronco dela. Tira o chapéu e saem em disparada os passarinhos que faziam folia nos galhos da amiga. O menino os observa até sumirem longe, como se levassem o passado embora em suas asas. Mas ele permanece no barulho da água no lugar onde o rio dobra. Trova intermitente.
            A saboneteira caminha os caminhos do menino no ponto em que nela eles se cruzam. Como agora, em que ampara o dorso do velho, que pensa estar apenas acobertando-se do sol, quando na verdade veio andar errante por uns minutos nas memórias tantas. Está cansado e conclui que não aceitaria viver tudo de novo, apesar do muito riso que teve, dos muitos abraços e afagos, dos amigos, dos amores, das peraltices, das crianças que educou, dos suores e das recompensas. Não quer nada mais de novo, aceita o ciclo da vida. Aceita ou é resignado – sabe-se lá – porque tanto já foi levado mesmo e não acredita em retorno. Passou.
            O velho menino está cansado. A camisa azul de brim tem o tecido raleado e já se desfiando, mas ficou bem mais confortável do que quando nova. A calça longa dobrada nas canelas deixa à mostra a pele branca e peluda. À mostra para o vento, que sempre acariciou aquela criança, que o sente com mais carinho agora.
            __ Conheço você, rapaz, desde antes de nascer __ assim falaria o vento, se pudesse se comunicar em palavras. O velho recosta a cabeça no dorso da sabãozim, vira o rosto e sente a aspereza lisonjeira de seu tronco. O coração tem menos energia que no tempo em que a escalava e nela se pendurava, derrubando-lhe as folhas no agito. Se fosse setembro, então, nem precisava sacudir muito. As folhas pareciam cair só de serem olhadas. E quando o vento batia mais forte, era aquela belezura a chuva de folhas. Depois vinha a fase tristonha, da árvore peladinha, e o menino olhava ansioso cada dia se o verde bebê já começara a rebrotar.
            Ele olha para o alto e sorri. Reconhece o amor agora, porque antes era inquieto demais para pensar nessa amizade.

4 comentários:

  1. Que texto mais lindo, Regina! Isso é literatura da boa. Fiquei curiosa e fui pesquisar sobre a árvore. Encontrei fotos. Planta maravilhosa! Merecia mesmo um texto à altura. Beijos!

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  2. Suavidade e poesia,características de seus escritos.Texto leve,que faz bem ao coração.
    Parabéns!

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  3. É um texto leve e bonito, que se pode ler e imaginar-se a plainar suspenso por uma leve brisa que é, na verrdade, essas tuas palavras tão alegres e encantadoras.
    Abraços, amiga, e que você continue assim, a nos alegrar com sua fértil capacidade literária.

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  4. Estou ávido para ver a foto que você tirou de uma Sabãozim, encantando ainda mais seus escritos. Mas sem ela (a foto) já é possível vê-la frondosa, imponente a descansar o velho homem de memórias da mocidade. Parabéns, Regina, por nos transportar ao pensamento fértil de tantos personagens.

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