quinta-feira, 2 de junho de 2011

Xeque-mate


Organizemos as peças no tabuleiro. Cada qual em seus devidos lugares. As minhas daqui, as suas de lá. Os espaços marcados, pensados e traçados para ser um palco de batalha limitam nossos movimentos. Você quer o meu rei e eu quero o seu: linhas cruzadas. É um jogo secular, sempre sendo redescoberto.
Pois bem. Já que está com as peças brancas, pode começar o jogo. Uma... duas casas em minha direção. Paro, penso e avanço também. Do alto da torre, miro o seu exército. Não há como não sentir um aperto... Deve ser a aflição comum de quem entra em campo. Mais um lance daí e uma reação de cá. Uma passagem daqui e outra de lá. Um pastor? Que susto! Já tinha ouvido falar nessa técnica. Você é mais experiente que eu, rapidinho me dominou: xeque-mate!
Não estou frustrada. Sinto-me desafiada e quero continuar. Troquemos as peças de lado. Agora a branca sou eu e a regra me permite iniciar o embate. Era mesmo o que eu queria fazer desde o começo. Com meu cavalo, vou a galope, num salto invisto sobre o seu bispo e abro novo caminho. Nossos peões se entregam, matam e morrem.
Sei do risco de nova derrota, mas ela importa menos que a partida. Falta-me jeito para o jogo, mas mostro coragem aos meus soldados e redobro a atenção: cada deslocamento muda todas as possibilidades do futuro. “Há neste campo algum rio?” O meu rei está com sede e os peões, ocupados em protegê-lo, não podem sair agora a procurar água. “Há neste campo algum rio?”, o rei volta a perguntar. Talvez seja bom fazermos uma pausa, porque o rei tem movimentos curtos e não está podendo mais suportar. Você pensa se deve me conceder a pausa e eu desisto dela. Ajeito-me na cadeira. Observo os seus movimentos em cada lance e devo confessar que não os compreendo bem. Ameaço tocar uma peça e olho os seus olhos, à espera de um sinal que me estimule a avançar ou me faça recuar.
Seu rei está ficando só. E não é que ele está a fugir de mim? A brincadeira começa a ficar divertida e eis que sua rainha me cerca. Não acredito! Onde é que estava essa peça que eu não via? Chegou veloz em linha reta, pela diagonal, e acabou com toda a estratégia que eu estava começando a armar. Achei que estivesse aprendendo. Sorte que esta morte é de mentirinha.
Desmanchemos tudo e vamos de novo. Só mais uma vez, eu imploro. Não que eu queira vencer, quero mesmo é, peça a peça, capturar você.
 

7 comentários:

  1. Demais,Rê! Senti-me movimentada em meio a um tabuleiro de xadrez!.Belíssima narração!

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  2. Regininha, querida amiga, ensina-me a jogar xadrez. Queria tanto capturar essa sua pena leve e sair por aí derrubando reis, rainhas... Quem sabe até uma princesa.

    Abraços palmenses

    Marcelo Santos

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  3. Depois desse texto, nem pense em dizer que não joga xadrez. Ninguém acreditaria. :) Beijos!

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  4. Xeque-mate em quem...? Muito bacana o texto.

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  5. Ha partidas que são realmente memoráveis. Eu gosto especialmente daquelas em que uma peça estrategicamente colocada numa determinada casa, já nos primeiros lances, vai possibilitar um cheque-mate lá no lance quadrasésimo. Conta-se que o xadrez é lição de vida. Eu acredito, tanto que calculo bem os meus passos. Sei que uma passada hoje poderá ter consequências sérias muitos anos adiante. Mas isso você sabe muito bem, Minha Regina. Estou com a Carla: se disser que não joga xadrez, ninguém vai acreditar.

    Felicidades!

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  6. Como cantarola Elis Regina, "nem sempre ganhando / nem sempre perderdo / mas sempre aprendendo a jogar". Essa é a lição que importa. Parabéns por mais este primoroso 'jogo' envolvente de texto.

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  7. e no jogo se faz da alegria a flor que o amor se busca

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