sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Onde guarda-se o tempo



          Estava tímida e bela aquela tarde, com o colorido distante no horizonte, mas parecendo estar tão perto que Isabel o sentia dentro de si. Ela recebeu com orgulho e pesar os gentis agradecimentos que vieram de seu dileto paciente. Com orgulho porque o admirava de modo elevado e com pesar porque gostaria que viessem à mulher, mas pareciam vir somente à enfermeira.
          Já fazia mais de um ano que Isabel entregava-se a cuidar de Berto numa cadeira de rodas. Podia andar, mas sucessivas quedas preocupavam a família e na cadeira era mais seguro. Berto era um notável otimista. Nunca se sabia quando estava sendo atravessado pelas sombras de tristeza que cobrem, vez ou outra, as pessoas. Dizia repetidas vezes que se sentia muito bem por não estar mais no hospital, onde passara meses e onde, todos os dias, os dias inteiros, seus olhos viam a mesma desbotada paisagem e onde viveu na condição de objeto. Tinha medo das enfermeiras, elas não eram como Isabel. Falavam pouco e eram carregadas de um presságio ruim.
          ͟   Olhe estas pedrinhas... ͟  falou levando o olhar ao chão, enquanto tinha sua cadeira empurrada por Isabel. ͟  Nunca as havia percebido tão bem. Agora, saltam-me à vista.  A saudade de Joaninha é o que me apresenta o mundo.
          E entre risos roucos, continuou:
          ͟   Antes eu tinha Joaninha, não tinha saudades, não via as pedrinhas.
          Berto tinha os olhos perdidos nas pedras, ao longo da estreita rua Pedro Paulo. De um lado, a via, ele e Isabel pela calçada, de outro lado as pedrinhas.
          ͟  Você percebe Isabel, como elas brilham? Você só não pode ver como elas são capazes de aprisionar o meu tempo.
          As pedras levavam a Berto a lembrança de Joaninha caminhando ao seu lado. Ele inclinou a cabeça e, após uma pausa, reergueu o corpo empurrando com as mãos os braços da cadeira.
          ͟   É por isso que quero voltar a Mariana, para rever o órgão da Sé. Eu quero saber qual pedaço do tempo ele prendeu. Talvez me volte alguma frase dela, uma palavra que precise ser redita.
          Berto tinha então 80 anos e pensava muito no que poderia ser interminável. Voltou a fixar os olhos nas pedrinhas e suspirou com desapontamento, ciente da necessidade de resignar-se com o que indignava-se: o fim.
          ͟   Que boa idéia a sua, Isabel, de passearmos por aqui. Obrigado.
          ͟   Ora, não há de quê. E eu também estou gostando muito do passeio.
          ͟   Você poderia me servir um pouco de água?
          ͟   É claro, Seu Berto.
          Isabel entregou-lhe o copo com água e tocou as grandes mãos dele.
          A enfermeira ouvia tudo, todos os dias, atentamente. Mas as afirmações de Berto pareciam ficar flutuando sobre sua cabeça e não caíam. Porém, a Isabel, bastava  ouvi-lo falar e vê-lo gesticular com suas grandes mãos. Admitia sentir certa inveja daquela mulher que ela não conhecera.
          O tempo dispensado aos cuidados de Berto foi agradável e diferente de outros de sua vida. Tempo que recebeu uma sacudida na noite em que seu telefone tocou, trazendo a notícia pelo filho de Berto: no dia seguinte não precisaria amanhecer em sua casa, porque o pai fora hospitalizado com urgência, forte crise de falta de ar.
          Seus momentos com o velho amigo passaram a resumir-se aos minutos do horário de visitas na Unidade de Terapia Intensiva, que ela dividia com os familiares dele. Na ida para o hospital, evitava a rua Pedro Paulo. Mas houve um dia em que a intenção de caminhar por lá fora reconfortante. Isabel apanhou as menores e mais brilhantes pedrinhas para levar a Berto. Colocou-as no bolso, bem escondidas. Queria rever aquele sorriso que tanta falta lhe fazia.
          ͟   Eu não preciso mais ficar aqui.
          ͟  Precisa sim, seu Berto, até ficar muito bem. Olhe, eu trouxe algumas daquelas pedrinhas brilhantes que o senhor me mostrou naquele dia.
           ͟   Joaninha... Isabel, eu não preciso mais das pedrinhas. Você me dá um pouco de água, Isabel?
          Isabel entornou-lhe vagarosamente a água, que mal molhou a boca de Berto e ele começou a desfalecer. Tentaram reanimar seu amigo e conseguiram. Mas, desde então, ninguém mais podia conversar com ele. Isabel continuou fazendo suas visitas, duas vezes por dia, mesmo que somente para olhá-lo e para tocar suas grandes mãos. Uma semana passou-se assim e então tudo acabou.
          As falas de Berto que flutuavam soltas sobre a cabeça de Isabel caíram todas de uma vez. Não havia mais desconcerto sobre o tempo nas pedrinhas, mas a enfermeira decidiu seguir por um caminho diferente daquele que Berto seguia. Voltou a evitar a Pedro Paulo e não assistia mais senhores idosos. Entretanto, a saudade não é dominável assim. O tempo revira na memória os lugares por onde já viajou a alma e a presença de Berto reacendia-se a ela sempre naquela linha rubra e inalcançável que repousa distante nos fins de tarde.

4 comentários:

  1. Ah, as pessoas que podem ter um Berto em suas vidas... lindo conto, Regina! Parabéns!

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  2. Regina, faz o Berto reencarnar rapidinho, no próximo conto, please! Aos 20 anos, ele já vai poder se apaixonar pela Isabel. Brincadeiras à parte, gostei muito do conto. Só faltou um final feliz pra satisfazer meu lado noveleiro. Beijos!

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  3. Contista de verdade! Parabéns!Prendeu minha atenção na suavidade da narrativa,na curiosidade provocada por sua condução do leitor através do episódio!

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  4. Que lindo o seu conto, Regina, ainda não conhecia seus escritos, estava perdendo pedrinhas rsrs

    Adicionei seu blog à minha lista de Recomendados, depois, se interessar, dê uma olhadinha por lá ^^

    Bjs,
    Amanda Reznor

    http://amanda-reznor.blogspot.com

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