segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Bailarina

Na grande praça, ela dançava.
Descalça na grama, soltava os braços e dava largos passos, exibia saltos e rodopios. Nada de improviso e também não tinha bebido, mas embevecia o rapaz que, observando aquilo, abaixou o livro que lia, tirou da face os óculos e toda a paisagem se alterou, o canto dos pássaros se calou e a algazarra de crianças se acalmou. Morria e renascia o cenário em que ele se inseria e onde agora só existia a moça que ele via.
Na grande praça, ela dançava. A princípio ele pensou que se tratava de mulher ensandecida. Mas a  saia longa e branca passava por ele com tanta graça, que a sandice em juízo se fazia. Ele tinha um compromisso? Não sei, mas a hora já passou.                                    
E ela dançava. A fronte em riste, para o alto à direita. Os dedos alongados querendo pegar o inalcançável. Ritmada, voltava-se ao horizonte e descia o olhar ao chão. A bailarina, entre as plantas, sumia e reaparecia. Ao jovem voltou o tempo das árvores em que ele subia e onde se escondia. Naquele instante desejou possuir a dançarina, para que a infância e a velhice, que ele ainda não conhecia, se transfigurassem num dia, aquele dia de fantasia.
Na grande praça, ela parou. Parou em frente ao rapaz extasiado no banco. Olhos nos olhos, ela ofegante, estendeu a ele a sua mão. Era um convite à dança, mas ele não foi. Preferia continuar expectador solitário. Deleitava-se assim, nos movimentos dela e ela, num sopetão, queixo ao alto, abriu os braços de novo como se fosse alçar um vôo, dobrou a perna esquerda, pôs o joelho diante dele e a grande saia não parava de mostrar-se viva, no vento frio que fazia.
Ela ergueu os braços unindo as mãos, ele fechou os olhos e o livro. Reabriu os olhos e, então, a vida na grande praça foi retomando sua atmosfera própria que havia desaparecido no minuto de uma poesia, aquela que ele lia.

10 comentários:

  1. Muito legal também ter 'visto' a bailarina em meu pensamento. Quase me vi com o livro às mãos. Quase aceitei o convite à dança. Me deleitei com suas palavras, como sempre bem escritas. Que sorte, a senhora-moça das palavras é você, Regina!

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  2. Magia e encantamento... dancei... tirei meu par e dançamos... ao vento ficaram livros e pensamentos tolos... Fui bailarina feliz! Obrigada!
    Abraço da Célia.

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  3. Oi, querida! Obrigada pelas palavras. Bom esses encontros repentino, não é? Também adorei teu espaço: tão bonito, tão autoral, tão seu. Virei mais vezes!

    Ah, e este texto me fez ter vontade de dançar. Me fez também retornar a um pequeno escrito sobre esses encontros e desencontros da dança. Se quiser conferir: http://pedradosono.blogspot.com/2010/08/moca-ja-nasceu-com-danca-no-corpo-e-ele.html

    Bjs, flor. Uma bela semana!

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  4. My God!
    Poema em Prosa...
    Enquanto li já imaginava o cenário para meus alunos encenarem a peça teatral!
    Primeiro uma leitura forte e pausada, cheia de tons trágicos, velozes como os rodopios da saia da bailarina...em seguida....como uma sonata o tom da voz e a bela narrativa trazem de volta o jovem....
    Lindíssimo!
    Bravo!
    Sou uma amante do conto, do conto rápido, do ápice e da queda, das letras bonitas e cenários lindos em nossa imaginação feitos de palavras que alguém as criou.
    Bjs,

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  5. OI Regina,

    te vi no blog da Célia e quis conehcer um pouco mais de você!
    Que linda a sua crônica! Um jeito de contar todo peculiar! Me senti na praça, na dança...
    Parabéns!

    Abraços

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  6. Concordo com a Sandra Puff, Regina: poema em prosa. Palmas pra você! Texto lindo, delicado, surpreendente. Beijos!

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  7. Olá, Rê
    Tenho estado doente desde sábado. (Por sorte já tinha agendado o post para domingo… doutro modo a postagem teria falhado).
    Quase não tenho posto os pés – melhor dizendo, as mãos… - no PC.
    Já estou um pouco melhor, mas não completamente bem. Não está a ser fácil, mas há-de ir ao lugar… Ainda não consigo estar aqui muito tempo seguido, tenho que intervalar :)
    Aos poucos, vou visitando os blogs amigos, não com a presteza que eu desejaria, mas com a que é possível.

    Maravilhoso texto! É poesia pura. Dá vontade de saltar para a grama e dançar.
    Parabéns. É MUITO BOM.

    Bom fim de semana. Beijinhos

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  8. Gostei daqui e estou te seguindo.
    Um abraço
    Marineide
    (marcia grega)

    http://marciagrega.blogspot.com
    http://coisasminhas-escritas.blogspot.com
    http://gregapoemas.blogspot.com

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  9. Rê, minha doce amiga
    Já cá vim duas vezes depois que comentei, mas como não havia nada de novo... não disse nada. Podia pelo menos ter deixado um beijo... Confesso que não me ocorreu.
    Vc tem sido dum carinho maravilhoso, sempre interessada pela minha saúde. Obrigada, minha querida, de coração!
    Como disse à Carla fui ontem ao médico, que me encontrou bem. Mas depois que voltei, até me deitar, não imagima o quanto tossi. Sabe? Estava na sala de espera um senhor (cigano) com uma constipação tremenda. Tossiu todo o tempo que lá esteve. Penso que os vírus dele acasalaram com os meus e reproduziram-se em grande velocidade :)))
    Preciso dar tempo ao tempo, e, se Deus quiser, com mais dois ou três dias fico boa. Mas foi uma virose daquelas arrevesadas :)))

    Obrigada, minha querida, pelo seu cuidado e carinho.
    Continuação de boa semana. Beijinhos

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