sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Outro lugar

(continuação da postagem anterior)

Imagem: FadoAlexandrino


A velha deu mais alguns passos e parou a olhar o riacho que corria – água viva, ela também, ainda – e seguiu novamente pela rua. Sua busca era só a de um lugar para descansar.

Não. Era mais. Era a de um lugar pra ficar. Se ela se permitisse desejar mais, ia querer um lugar que fosse seu, porque para o que um dia lhe pertencera, não podia mais voltar.

Deu mais alguns passos até uma mureta que ficava perto da ponte e recostou-se. Não era muito cômoda, mas deu graças a Deus e suspirou.

            - Oi, Dalva! - falou a criança que foi se sentando ao seu lado.

            Já fazia alguns dias que não ouvia o próprio nome. Olhou para a mocinha e correspondeu ao cumprimento com um sorriso.

            − Tá um pouco frio hoje, né?

Dalva meneou lentamente a cabeça, dizendo “sim”.

            − A senhora conseguiu encontrar?

Ela movimentou novamente a cabeça, dizendo “não”.

Dalva mexeu na sacola que carregava e olhou a menina, admirou sua juventude. Tentava demonstrar indiferença, mas como nunca fora boa em disfarces, levantou-se com dificuldade e saiu a alguns passos dali.

Em pé, parou diante do rio que não pára. Que corta, refaz-se e passa. Mão sobre mão sobre a curva da bengala. Outra curva, ela olhava. Sofria? Não. Fingia? Não. Só pensava...  que ele também buscaria outras portas, se fosse interceptado algum dia.

A menininha que havia sido deixada na mureta também se levantou e postou-se ao lado de Dalva, como se da mesma forma observasse o rio. Ela não temia a mulher, que tinha fama de louca porque vivia pela cidade à procura de algo que ninguém sabia o que era e ainda conversava sozinha. Era razão de chacota e também de muita fantasia: a de que tinha sofrido um grande trauma na infância, a de que não superara a perda de um ente querido, a de que sofria de amnésia, a de que tinha uma obsessão recorrente, a de que lhe tinham roubado um objeto muito precioso e segredado...

- Eu moro ali – falou a criança, interrompendo o silêncio e apontando em direção à parte da cidade que ficava do outro lado da ponte – e lá tem um pé de amora no quintal.

A velha sorriu largamente e falou:

– É a frutinha mais gostosa que existe.

As saudades das brincadeiras de criança, dos amigos e da rua cascalhada vieram agradavelmente a Dalva. Nas suas lembranças, estava também a casinha branca, cheia de amoreiras no quintal, que as crianças invadiam quando o dono estava fora.

- Ontem, eu fui tentar subir na árvore e caí.

- Aproveite enquanto é pequena, porque as amoreiras não suportam gente grande.

- Mas é melhor ser grande, pra alcançar os galhos mais altos.

- Mais altos? - Dalva sorriu de novo - As pessoas grandes não são tão grandes assim.

A menina ficou ouvindo pensativa e Dalva continuava falando:

- E é preciso ter muito jeito, porque as amoras maduras se entregam só de balançar o galho, mas se a gente não ficar atenta, elas somem no chão -  falou e pensou nas amoras,  sentido a boca se encher de água.
A menina, de repente, tomou um susto com algo de que tinha se lembrado:

- Nossa, Dalva! Eu tenho que ir embora agora, porque o Seu Luiz já deve ter chegado. Outro dia eu convido você pra ir conhecer a minha casa, tá?

O sobressalto da criança espantou a senhora também. A menina saiu correndo e Dalva ficou a observá-la, parada. O peito lhe doía a imaginá-la com o Seu Luiz, homem mau. Era o tutor da garota desde o desaparecimento da irmã mais velha. Seu Luiz falava que a irmã tinha fugido, mas ela não acreditava e muito o temia. A imagem do rosto da mana lhe desaparecera, mas a menina assumiu os seus papéis. Cozinhava, lavava e deixava a casa um brinco, como se fosse duas adultas.

Alguns dias se passaram sem que Dalva a encontrasse novamente. Na ausência da menina, a mulher voltava ao ofício de bater nas portas das casas, espiar pelas janelas, observar as conversas.

Num fim de tarde bonito, uma agonia. A lua se mostrava imensa, insinuando que ia dar um espetáculo ainda maior na noite que se aproximava. Dalva correu a se esconder, porque a lua a aterrorizava. Correr para onde? Toda dura das pernas, fugindo da lua se avolumando. O coração estava aflito demais. Dalva não tinha um lugar bom de verdade para se esconder nas noites de lua cheia, desde que decidira ainda na infância fugir de casa, do homem que só deixava a carranca e os modos violentos nas noites de lua cheia, quando dizia em tom festivo:

– Olha a lua, que linda! Dalva, vem aqui ver a lua! Olha, que maravilha!  – e convidava Dalva menina pra ouvir música e comer coisas gostosas. Ela tentava disfarçar, mas o terror muito grande não passava, apesar da mudança de humor dele. De demônio, o velho se transformava em anjo quando a lua aparecia e foi confundindo e confundindo a cabeça da menina, que passou a temer a lua, quando mais poderia se agradar dela.

E lá vinha a lua chegando. Dalva tentava não erguer o olhar, para que a voz daquele homem e a cara dele com nariz enorme não retornassem à cabeça dela. Avistou umas caixas empilhadas e se encostou numa parede ao lado delas. Tentava segurar a respiração ofegante e viu que sua amiguinha estava ali, agachada, se protegendo também. E não é que o diabo velho do Seu Luiz apareceu sorrindo, chamando a garota?!

– Por que é que você não veio até agora pra se sentar comigo na varanda? Não tá vendo a lua como está linda? – a menina escondeu o rosto e Dalva pegou um caixote e o desceu forte sobre a cabeça dele.

- Hahahaha! – era uma risada só, a alegria nervosa das duas. E depois da festança no coração por aquele momento, elas se deitaram ali mesmo e adormeceram. Quando Dalva acordou, a amiguinha já não estava. Queria um tempo maior para conversar com ela, mas suas visitas eram como farelos de pão caídos da mesa, nas quais Dalva se alimentava como um cão e que acabavam muito rapidamente.

Num dia desses, de farelos caídos, a garotinha voltou. Quando as duas se viram foi como se o tempo não tivesse passado.

- Hoje nós podemos ir à sua casa – falou Dalva aliviada. Mas não havia mais riso, que se secou, porque voltavam à mente dela as histórias de maldade.

Mas o rio corria, ria... sem fim.

Dalva se levantou e começou a andar. Nem falava mais nada à menina. Só pensava em chegar. Aqueles passos tão curtos levaram três dias no trajeto até a casinha branca, que não era tão próxima da ponte como a garotinha falara.

A casa.

Nem parecia a mesma casa.

Uma casa sem gente perde mesmo a vida. Estava cheia de mato, mas as amoreiras estavam lá, embora tristinhas. Estavam precisando de um pouco de cuidado. Dalva ficou imaginando que fim tivera Seu Luiz. Com certeza não tinha desaparecido com uma caixotada na cabeça.

“Deve ter morrido de velho ou de algum infortúnio”, pensou.

As portas todas trancadas. Dalva mexeu na sacola, pegou a chave e continuou a arrastar os chinelinhos naquelas calçadas cheias de folhas secas. O peito doeu de novo quando meteu a chave na fechadura. Abriu a porta com facilidade, mas muito vagarosamente. Caminhou por toda parte, passou a palma da mão no espelho muito empoeirado e ao se ver diante dele nunca mais viu o rostinho da menina. Olhou ao redor e pensou quanto tempo levaria pra deixar tudo limpinho de novo.

21 comentários:

  1. Parabéns, Regina! Agora a história está completa e comovente. Conseguiu. :) Vivaaa!!!

    ResponderExcluir
  2. "...mas suas visitas eram como farelos de pão caídos da mesa, nas quais Dalva se alimentava como um cão e que acabavam muito rapidamente."

    Adorei essa parte!!!
    É triste e lindo ao mesmo tempo.
    Nossa você me tirou o folego com esse conto!
    Obrigada por me convidar!

    Lindo demais!

    ResponderExcluir
  3. MUITO COMOVENTE A HISTÓRIA, PARABÉNS REGINA. BEIJOS. BETH

    ResponderExcluir
  4. Não pare de escrever! Continue! Logo, logo, teremos um livro! Gostei de verdade! Acredito que muitos gostarão!

    ResponderExcluir
  5. Realidades pelas quais tropeçamos, e somos cegos para ver com os melhores olhos: - os do coração! Emocionante! As amoras, apenas um detalhe lindo de uma recordação da ingenuidade e da simplicidade em nossos "farelos de sentimentos"! Belo!
    Bj. Célia.

    ResponderExcluir
  6. Me senti um pouco a velhinha à procura de "um quinta e uma janel para ver o sol nascer", de preferencia numa casinha branca de varanda, como diz a música.
    Parabéns, Regina, pela escritora que se tornou, cada dia melhor e mais encantadora.

    ResponderExcluir
  7. Olá, Regina
    Adorei seu conto, que me emocionou.
    Quando li a primeira parte não podia imaginar este desenvolvimento. Ficou mesmo muito bom.
    Espero que continue a brindar-nos com seus escritos.

    Um GRANDE beijinho

    ResponderExcluir
  8. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  9. Também pensei que ele estava acabado...Surpreendeu-me
    O desfecho ficou excelente,Rê! Parabéns,minha amiga escritora!

    ResponderExcluir
  10. Olá, Regina
    Como você sabe afagar o meu ego! As suas palavras
    “me afeiçoei com o bebezinho na gaveta (senti vontade de abraçá-lo” souberam-me a mel, já que o bebezinho na gaveta era meu filhinho de sete meses…
    E, como se diz em Portugal – provavelmente também no Brasil – “quem meu filho beija minha boca adoça”…
    Muito obrigada por seu carinho.

    Aproveitei para reler o seu texto, que é, de facto, muito bom!
    Não nos deixe muito tempo sem novidades...

    Continuação de boa semana. Beijinhos

    ResponderExcluir
  11. Olá, Regina
    Comentário mais que gentil o seu. Estou retornando aos poucos.
    Não posso deixar de dizer "que delicadezinha esse texto seu, no diminutivo, porque é delicado, purezas da alma".
    Abraço,
    Sandra

    ResponderExcluir
  12. Amo a arte literária, uma excelente narrativa.
    Aplausos ao conto. Parabéns!! (Sigo)

    Enigma.

    ResponderExcluir
  13. Olá, Regina
    Estou voltando ao Blog discretamente, ainda...rsss
    Adorei os diálogos: "É a frutinha mais gostosa que existe"...adoroooo essa espontaneidade na narrativa.
    Então, fui indicada com um Selo Prêmio no Blog e indiquei alguns Blogs e o seu está para pegar o selo, se assim quiseres..
    Abraço,
    Sandra

    ResponderExcluir
  14. OLá, Regina
    Estou passando para deixar um abraço e desejos de uma semana
    muito feliz.
    Tudo a correr pelo melhor.
    Beijinhos

    ResponderExcluir
  15. Regina... vim aqui pelo blog da Mariazita, justamente acima de meu comentário!
    Belo texto. Não pare de escrever. Esse texto é tocante. A foto é de uma ternura muito grande!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  16. Hoje venho convidar-te a visitar o meu blog
    HISTÓRIAS DE ENCANTAR
    , onde, excepcionalmente, acabo de publicar um post.
    Desde já fico muito grata.
    Beijinhos

    PS - No próximo dia 14 haverá post novo em A CASA DA MARIQUINHAS

    ResponderExcluir
  17. Eis a resposta ao teu comentário, que coloquei no blog
    HISTÓRIAS DE ENCANTAR

    Regina, querida
    Eu é que agradeço a sua presença, que me é sempre tão querida.
    Fico muito feliz por ter gostado. Concordo que é emocionante, e agradeço a recomendação.
    Também a mim o Natal causou sempre uma certa nostalgia, especialmente a partir da data em que perdi os meus Pais. Este ano a coisa complica-se muito mais… mas Deus me dará forças para ultrapassar.
    Um grande beijinho desta amiga que lhe quer muito bem.
    12 de Dezembro de 2012 12:44

    ResponderExcluir
  18. Regina, querida amiga
    Muito, muito obrigada por suas palavras duma gentileza ímpar!
    Tenho certeza que minha Mamã, lá no lugar onde se encontra (que só poder ser o céu) se sentiu orgulhosa!
    É muito bom saber que o que escrevemos agrada às pessoas.

    Desejo a você e todos seus entes queridos um Natal muito feliz, cheio de Paz e Amor.
    Mil beijinhos

    ResponderExcluir
  19. Meus votos para 2013:

    "Que tenhas felicidade bastante para que possas suportar os momentos tristes; dificuldades para que venças e te fortaleçam a cada luta; sonhos para que busques a cada dia um novo objectivo; amor que te aqueça a alma; e esperança, sempre, para que não te falte o desejo de viver cada dia melhor, todos os dias.
    O que a vida quer de nós é simplesmente coragem!"

    ╔═════════ ೋღღೋ ══════╗
    ೋ ♫ FELIZ ANO 2013 ♫ ೋ
    ╚═════════ ೋღღೋ ══════╝

    ResponderExcluir
  20. Ameeei esta história! Que linda! Me remeteu á tantas coisas boas e ruins também! Muito simbólica!! Parabéns Regina, que sensibilidade bacana vc tem!! Bjão!

    ResponderExcluir