quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Um gesto

Fotografia de Anja Bührer


Diante de ti, estou calada e imóvel. Se me fizesses uma pergunta, talvez fosse fácil responder, mas dizes nada. Se me anunciasses um acontecido, eu poderia tecer um comentário vazio qualquer. Se me cantasses um hino, eu poderia me esquecer de que estou diante de ti, calada e imóvel.

Sei que se eu fizer um pequeno gesto, talvez uma palavra se defina e chame outra. Esse gesto, eu farei? Se o fizer, continuarás imóvel diante de mim, bem sei, mas há de absorver-me em teus poros e, então – ah! – não poderei mais retirar de ti o que de mim se projetar e deverei seguir reconciliando-me comigo. Comigo, por ti. Revelando-me em ti.

Olho a paisagem que se basta sem palavras. Por que não basto também eu a mim?

Se fosse este um primeiro encontro, justificar-se-ia o receio de projetar-me no vazio. Se fosse este o segundo ou terceiro encontro, ao menos o gesto esperado me sairia. Mas é o quarto, é o quarto...

Sendo assim tão difícil ainda hoje, esperemos mais um pouco, sem aversão nem conformidade. Enquanto espero, mergulho nos espíritos que repousam em minha estante. Como falam em seu silêncio grande. Parece que já disseram tudo, menos o que se agita em mim perante este vazio que parece ser teu.

Nunca antes assim e por tanto tempo, uma folha em branco me foi tão angustiante.




6 comentários:

  1. Lindo tudo! Lindo esse trecho: "(...) deverei seguir reconciliando-me comigo. Comigo, por ti. Revelando-me em ti". Da vontade de ser o papel :))

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  2. Ainda bem que me avisou, Regina! Sorte minha. O texto é lindo. Reli duas vezes e está perfeito. Literatura é sua praia mesmo. Parabéns!

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  3. Ah! Esse quarto... é o quarto...
    Ah! Essa folha em branco...
    Instigante é ter a consciência de uma "própria reconciliação"...
    Não classificaria esse "tempo", como "angustiante", mas sim conscientização dos meus limites.
    Ótimo momento de excelente leitura! Obrigada, Regina.
    Abraço.

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  4. OI REGINA!
    DE UMA PROFUNDIDADE E BELEZA QUE TOCA NO FUNDO DA ALMA.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  5. Olá, Regina
    Que surpresa boa!
    Vim aqui para agradecer a sua presença no meu penúltimo post (já eu estava de férias) e deparo-me com este maravilhoso texto.
    Uma descrição perfeita de sentimentos que por vezes nos invadem, nem sempre fáceis de passar para o "papel" - que tantas vezes assume o papel de nosso inimigo, à espera, à espera... e as palavras que não surgem...).
    Gostei imenso!

    Espero que dê continuidade aos seus escritos, que me sabem sempre tão bem!

    Bom Fim-de-semana
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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  6. Lindo teu texto. É um poema em prosa. Parabéns! Deixe-me fazer uma releitura em versos!?...
    Meu amor, falta-me um gesto!
    Um gesto teu, qualquer um...
    Um olhar de amor, tão comum
    Ou um alô que eu te empresto

    Com um tom de voz modesto
    Na timidez de um jejum
    De teus gestos que algum
    Dia, tu darás sob protesto.

    Faça-me um gesto qualquer
    Que um homem faz à mulher
    Que tem interessa, amor!

    Teu silêncio é um castigo
    Para mim e não consigo
    Assim viver, por favor!...

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